Um dos grandes gênios que o mundo já viu sintetizou perfeitamente (como de costume) como a busca pelo belo fascina o mundo desde sempre. Deve ser por isso mesmo que, vira e mexe, encontramos aí alguém que deu uma puxadinha num lado do rosto ou tirou uma gordurinha do abdômen. Contudo, aquela velha história de recuperação por um longo tempo e cortes profundos parece que ficou para trás. Pelo menos é o que atesta a American Society for Aesthetic Plastic Surgeons (ASAPS). Os procedimentos menos invasivos cresceram 84% nos últimos 17 anos. Uau!

Quem me contou essa realidade foi a cirurgiã plástica Patrícia Leite, que descobriu essa lacuna no mercado e deu um jeitinho de abrir agenda para aqueles que buscam soluções que não dependam tanto do bisturi. É claro que as cirurgias plásticas continuam tendo espaço. E isso não vai mudar. Mas o que causou curiosidade na nossa redação foi exatamente o crescimento astronômico dos procedimentos realizados no consultório, com anestesia local e que não demoravam mais de 30 minutos para serem finalizados. Foi assim que surgiu a ideia de nossa matéria de capa da primeira revista de 2016.
 
 

É o fim do bisturi?

Procedimentos estéticos minimamente invasivos invadiram os consultórios e caíram em definitivo no gosto dos pacientes

Bigode chinês, marcas de expressão e ruguinhas bem no alto da testa. Eis a hora de entrar no bisturi? Talvez não. Como IMG_9853assim? Muito simples. Os procedimentos minimamente invasivos – aqueles que podem ser feito num consultório médico com anestesia local, por exemplo – têm se tornados símbolos de uma era em que a tecnologia é o verdadeiro rei do tabuleiro. Essa proporção é bem maior do que você pode estar pensando. Duvida? A comprovação vem da renomada American Society for Aesthetic Plastic Surgeons (ASAPS). Segundo a entidade, em 2014, foram realizados 6,5 vezes mais procedimentos cirúrgicos e não cirúrgicos do que em 1997. Desse total, a quantidade de procedimentos estéticos foi quase 12 vezes superior, ou seja, 1200% em relação aos cirúrgicos. Nos últimos 17 anos, 84% dos procedimentos foram não-cirúrgicos e apenas 16% cirúrgicos. Convencido?

Em conversa com a cirurgiã plástica Patrícia Leite, fica claro que não existe espanto para tais números, pelo menos para ela. Esse cenário, segundo a médica, envolve diversos fatores. Hoje, as pessoas preferem os procedimentos mais baratos, mais rápidos, que não inchem tanto e que não tenham aquele efeito “esticadaço”. O tempo de recuperação menor é outro fator que tem conquistado multidões. Na clínica que leva seu nome, Patrícia precisou reservar espaço na agenda e destinar tempo para pacientes que buscam opções. “Faço uma média de 30 procedimentos estéticos por dia no consultório, e estou com a agenda cheia até agosto. Ao invés de só operar, abri espaço para procedimentos estéticos. E foi num momento em que os pacientes estavam sedentos disso, de alguém que abraçasse isso. Vi que as pessoas que iam operar queria um Botox, levantar um pouco a pele. Por que não? Quem tem a capacidade de cortar um rosto, consegue colocar um Botox, passar um fio. Acaba sendo muito simples para a gente [cirurgião plástico]”, explica a médica.

O fio citado por Patrícia Leite  é a grande revolução do século. E olhe que não há exageros nessa afirmação. Trata-se de uma evolução moderna, que proporciona o rosto definido, efeito “lifting” e o reposicionamento da flacidez ao redor da mandíbula e o melhor de tudo: pode ser feito com consultório, com uma média de 30 minutos. “O fio é uma grande jogada, iniciada logo pelo nome: fio de sustentação da face. Todo mundo quer dar uma esticadinha, até pessoas jovens. E não é tão invasivo. Ele já existe na medicina há anos, porém com materiais piores, inabsorvíveis pela pele, como fios de ouro, búlgaro ou russo, que eram usados antigamente. Faz mais ou menos 20 anos”, pontua a cirurgiã.

 

O sutil que funciona

Ao escutar Patrícia explicando a técnica minuciosamente e com riqueza de detalhes, a ideia é de que tudo é bem simples. Talvez isso seja pelo tom agradável da voz e o conhecimento da médica, de 38 anos, que admite gostar de “estudar aos domingos trancada no quarto”. O marido já se acostumou. E ela não se incomoda com o excesso de trabalho, que vai até tarde da noite, e tão pouco com as cirurgias marcadas para o fim de semana. Muito pelo contrário. Patrícia se diz “fascinada pelo belo”, e essa história vem desde pequenininha lá em Divinópolis. “No meu sítio tinha amora, e eu fazia extrato da fruta para o blush e, assim, ter um fundinho no rosto. Eu usava isso nas minhas bonecas. Tudo certinho. Fazia bonequinha de barro com o narizinho mais arrebitado”, contou entre risos.

Talvez sejam o critério nato e o dom artístico (já que a médica é pintora) os responsáveis por fazer com que ela enxergue um milímetro de diferença na hora de passar o fio. “O resultado é sutil. Mas é um sutil que resolve, que o paciente sai feliz. O procedimento leva anestesia local, que dura 30 minutos. Faço com o paciente conversando comigo, aqui na sala mesmo. É importante fazer uns três dias de repouso e usar um microporozinho. Pronto! A partir dos 35 anos, já existem pacientes que me procuram, aquelas que têm uma leve caidinha. Contudo, é muito importante saber passar o fio, pois existem muitos pacientes insatisfeitos por aí, que não viram resultados”, alerta.

O simples (na hora de “só passar” o fio) não significa que o método não deva ser extremamente cuidadoso. Tanto que, para aplicá-lo, é necessário a realização de um curso, que, para falar a verdade, é bem rapidinho. O importante mesmo é ter visão, prática e conhecimento, a fim de que os resultados sejam visíveis. “Não é chegar passando o fio. Você precisa saber se ele está acima ou abaixo do plano anatômico correto. Faço rapidinho porque já opero face, e para cirurgião plástico a visão é diferente. Mas é um material que, se você não souber o pulo do gato, não vai chegar ao resultado. O macete [do fio] é ter conhecimento de anatomia da face e não apenas ir lá e fazer o curso”, ensina Patrícia.

 

O fio que se tornou ouro

O fio silhouett (sutura silhouette soft), que virou grande febre no Brasil, surgiu em território russo, mas foi nos Estados Unidos (para variar) que o negócio ficou milionário – para não dizer bilionário. Em 2006, dois cientistas russos, Patrick Shupak e Nathalie  Imberdis, inventaram o fio, porém acreditaram que ali estava só mais uma opção para o rejuvenescimento facial. Um engano. Venderam a ideia por pouco mais de €400 mil. Mas o sucesso chegou (e a valorização da marca veio junto). Assim, a ideia foi vendida por um valor bem maior para a Suturua Silhouette e, posteriormente, em 2014, por cifrões ainda maiores para a poderosa Sinclair Pharma.